sábado, 20 de setembro de 2008

Visão de Rua: O Poder nas Mãos


Saiu o mais novo trampo do grupo Visão de Rua: "O Poder nas Mãos". O CD segue a fase iniciada com "A Noiva do Thock", trampo que colocou o Visão de volta no cenário e o consolidou como um dos grupos de rap mais importantes da cena brasileira do hip hop. Dina Di, a maior rapper do Brasil, sem sombra de dúvidas.
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O Visão faz um som muito característico, de muita personalidade. Fácil de reconhecer logo na primeira audição. Inconfundível... Um "feminismo do gueto", onde a mulher fala de sua condição numa linguagem muito diferente do discurso intelectualizado do feminismo tradicional. E de uma perspectiva diferente, com um enfoque diferente. Afinal, quantas feministas que abordam o tema dentro dos "muros" seguros da Universidade possuem um marido preso?
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As letras de Dina Di falam de sua experiência de vida, com muita propriedade. Não há espaço para demagogia. Seu rap é sua vida.
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Assim, temas nunca antes explorados por outros rappers surgem de suas palavras. A relação com o filho, a família desestruturada, o amor, o machismo, a violência doméstica... Todos estes temas surgem pela primeira vez no rap pela voz de Dina Di.
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Em entrevista recente, Viviane (a Dina Di) afirmou que cada CD seu é uma fase de sua vida. Este, com certeza, expressa a maturidade de quem optou pela criação dos arranjos (ela toca violão e canta), embora o sampler também apareça. Criar o arranjo não fez com que ela perdesse o foco, não descaracterizou seu rap, embora haja algo de único e inovador neste trabalho. Desta vez ela se arrisca mais, inclusive nos backing vocals.
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"É o trabalho mais completo que eu já fiz, em todos os sentidos. As letras são um reflexo da minha própria personalidade, da minha crença, da minha fé, da minha conduta, dos meus objetivos. 'As coisas mudam', e as pessoas também... e no meu caso foi pra melhor. Estou no meu melhor momento. Me sinto feliz por ter realizado esse trabalho... mesmo com tantas dificuldades. Agora é só alegria." (clique aqui para ler mais...)
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Embora ache que o trabalho anterior (A Noiva de Thock) seja insuperável, este com certeza ficou muito bom. Seria impossível tratar de cada faixa aqui, detalhadamente. Não haveria espaço. De qualquer forma, vou comentar o que mais me chamou atenção.
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Em "Minha Alma Chora", como manda a tradição, W-Dee (Consciência Humana) participa. A base segue bem o estilo do Visão seguido no álbum anterior. Muito boa. De uma forma geral, este álbum está mais acústico, num ritmo mais cadenciado, mais reflexivo. "As Coisas Mudam" e "Eles Falam de Paz" seguem a mesma linha.

"Meus inimigos ainda estão de pé, eu sei quem são
é minha alma que eles "quer" hehehe
Estranhos que se levantaram contra mim,
a inocentes anos, e que amam a violência...
O clima é de tensão, de decisão, poucas palavras "jão",
concentração, muita oração, muita calma ai, o pés no chão,
paz, união: uma adorinha sozinha não faz verão...
Felizes são os puros de coração. Os que tem cede de justiça,
os que praticam perdão. Os que buscam alívio, paz,
libertação aos humildes, os corajosos. Ai, os que tem fé: as coisas mudam...

(Refrão)

O tempo leva quem eu mais amei
O tempo leva os sonhos que sonhei
Desfaz os planos que eu tracei, de felicidade, de felicidade (que saudades...)
O tempo leva quem eu mais amei
os misterios que não desvendei
Os meus segredos que guardei, a 7 chaves, a 7 chaves..."

Dina Di
VISÃO DE RUA

"As Coisas Mudam"

"Durmindo com o Agressor" é uma paulada, na base e na letra. A melhor na minha opinião. Tem a cara das produções do KL Jay.

"A Filha do Rei" trata de amor, espiritualidade. Assuntos espinhosos. É difícil abordar estes temas sem que o resultado soe falso, artificial. Dina Di passa por estes tabus com muita propriedade, sinceridade e honestidade. O resultado é bem legal.

“Tem gente que dorme com medo... acorda com medo...
vive com medo... morre com medo...
A dor ainda está em todos os lares: em casa, na rua,
nas escolas, nos bairros. (em toda parte)

Pode ser ainda pior, a fita é de mil grau,
pode ser ainda pior, se revidar o mau...
e tiver que se armar, e tiver que matar, manchar o seu nome
e tiver que fujir e tiver que roubar, tramar, senhor???
Não quero riqueza, e nem pobreza,
nem menos e nem mais que eu merecer na mesa
afasta pra longe de mim: a inveracidade, a inveja,
a lingua falsa, o traidor, a falcidade...
Me dê coragem, saúde, disposição,
uma mente com sabedoria...
não me tire a visão, me dê uma chance de me levantar,
com dignidade, honestidade, preciso salvar, preciso salvar nossa amizade...
Amigo do mundo, um inimigo de deus: verdade.
O mal não tem futuro: tudo, tudo, tudo, é vaidade...
Descanso pra alcançar o vento, o vento eheheheheh...
Não adianta correr, me corromper,
pra tudo tem seu tempo, pra nascer pra morrer...

Tempo de plantar e colher
Tempo pra amar, odiar, esquecer... se arrepender...
Tempo pra rir, chorar, perdoar,
Tempo de perder e ganhar, superar, e tirar as pedras do caminho...
Tempo de abraçar, tempo de ficar sozinho,
Tempos de paz, guerra, perseguição, fama, anonimato, desilução,
as coisas mudam...”

Dina Di
VISÃO DE RUA

"As Coisas Mudam"


"Espírito Rebelde" possui uma base pesada que mostra que o gangsta rap ainda é uma influência importante no trabalho dela. Esta é uma herança que mostra como o Visão ainda leva o estilo que consagrou o grupo em Campinas.

"O Guardião"
fala de amizade e "Guerreira de Fé" é autobiográfica. O CD ainda conta com falas de Marcão (DMN) e Helião (RZO). Nas produções, além da própria Dina, aparecem KL Jay, Consciência Humana e Dagruta.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Obama e Lebron na TV Norte-americana




Assisti com muita curiosidade uma entrevista do candidato a presidência dos EUA Barack Obama. Filho de um queniano com uma americana, ele nasceu no Havaí, um estado norte-americano. Um homem distinto, muito elegante, bem humorado e agradável. Bem diferente do durão republicano John McCain, um cara que chega a dar medo.


As eleições primárias do Partido Democrata, quando Obama derrotou Hilary Clinton, criaram uma ilusão de que o processo eleitoral seria uma verdadeira barbada. Na verdade, as pesquisas mostram um certo equilíbrio. A disputa vai ser dura. De um país que possui Arnold Schwarzenegger governador e que elegeu Bush (duas vezes!) não podemos esperar grande coisa...


Obama pode se tornar o primeiro negro a ser presidente do maior Império do mundo, o que seria, do ponto de vista simbólico, um grande avanço. Nunca um candidato negro teve chances reais de vitória. Sua plataforma política é, sem dúvida, melhor que a do adversário republicano. Não há como não se entusiasmar, de uma certa forma, pelo que ele vem a representar. Num país onde somente dois partidos (bem parecidos né...) estão verdadeiramente no jogo eleitoral, Obama pode parecer, em algum momento, como uma alternativa interessante.


Mas que não nos iludamos...


Numa certa altura da entrevista, Obama faz com que botemos o pé no chão. Ao falar sobre o Iraque, por exemplo, ele se posiciona contra a guerra. Porém, na sequência, afirma, naturalmente, que não teria invadido o Iraque, porque teria mantido o foco no Afeganistão (?). Com a maior naturalidade do mundo, ele diz que se os EUA tivessem mantido o foco no Afeganistão, hoje Bin Laden estaria CAPTURADO ou MORTO. Assim, com a maior frieza do mundo. Na seguência, o senador se queixa do valor investido no Iraque (3 trilhões ou algo parecido...). Ou seja, a preocupação é o GASTO, e não as ATROCIDADES cometidas lá pelo Bush.


Questionado sobre suas raízes africanas e sobre sua viagem ao Quênia em visita a sua avó, ele afirmou que se surpreendeu com a receptividade, pois os quenianos foram muito calorosos na recepção a ele e sua família. Depois (não se iluda...), elogiou o trabalho da Fundação do Bill Gates na África, reconheceu que Bush sempre investiu no combate a AIDS por lá, mas tratou de deixar claro que cada país que cuide de seus problemas. Sobre o imperialismo norte-americano no continente, obviamente, nenhuma palavra. Questionado sobre o Haiti, ele disse que é uma "pena", porém tratou de lembrar New Orleans, onde, segundo ele, o sofrimento também estava sendo duro. Ficou claro, numa comparação evidentemente desproporcional, que ele pensa nos problemas dos EUA como prioridade e trata o resto do mundo como o resto do mundo, como se os problemas na África, por exemplo, não tivessem nada a ver com eles... Como se não houvessem empresas norte-americanas pagando cerca de R$ 0,30 por dia aos africanos, como se eles e os europeus não tivéssem saqueado o continente africano, retirando marfim, minérios, borracha, etc., o que acontece até hoje, inclusive. Como se eles não bancassem governos corruptos e ditatoriais anti-democráticos por lá para assegurarem seus interesses, o que tem custado a vida de milhares de pessoas por lá. A consciência de raça do Obama vai até onde termina a fronteira dos EUA.


Do ponto de vista do combate ao racismo, é importante que os negros assumam papéis de comando. Nossa consciência de raça somente será plenamente possível se tivermos auto-estima como base. Saber que os EUA de hoje é um país menos racista do que a 50 anos atrás é, sem dúvida, um avanço. Mas um avanço limitado, de um ponto de vista mais geral da emancipação do homem por completo em todos os cantos do planeta, para a superação do capitalismo e construção de uma sociedade mais justa. Obama é o retrato mais "brando" de uma sociedade que se julga o centro do universo, que olha somente o próprio umbigo, que considera a guerra uma banalidade necessária e corriqueira. Claro, tudo isso é o que garante, na visão egoísta deles, todos os privilégios que eles possuem às custas de massacres que eles mesmos patrocinam no mundo todo...


Mas não foi somente isso...


Ontem (17 de setembro de 2008) o programa do David Letterman exibiu duas entrevistas interessantes. A última (e menor) delas foi a do Lebron James, o fenômeno do basquete que entrou na liga da NBA direto do High School (colegial), sem passar pela Universidade antes. Com apenas 23 anos e 2,03 metros de altura, o jogador que é considerado o número 2 (o antipático Kobe Bryant é o "the best" - mas não na minha opinião...) do mundo atualmente. Apesar de visivelmente tímido, o campeão olímpico desfilou bom humor e simpatia. Uma figura interessante. Atualmente ele é companheiro do brasileiro Anderson Varejão no Cleveland Cavalier's. Tem atualmente carregado sua equipe nas costas, tendo ficado pelo caminho após perderem para o Boston Celtic's, que desbancou o popular Los Angeles Laker's na final e sagrou-se campeão da temporada 2007/2008. Valeu a pena ter ficado acordado até mais tarde, mesmo sendo um único bloco.



Este é o EUA, um país que desperta amor e ódio, ao mesmo tempo...


sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Segue foto de uma oficina de hip hop que ministrei no SESI 234 de Valinhos, no último dia 10 de setembro. Em Campinas, mantemos um trabalho de incentivo a leitura, num projeto chamado "Dia de Leitura", com oficinas de hip hop também incluídas. Ontem (11 de setembro) estive no Newton Oppermann, uma escola do Jardim Florence, extrema periferia de Campinas. É um trabalho que desenvolvemos com alguns parceiros, onde procuramos manter a chama acesa, mesmo que voluntariamente e de forma militante. O último governo municipal em Campinas acabou com todos os projetos de oficinas de hip hop que aconteciam com o apoio e infra-estrutura da Secretaria de Educação...
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De qualquer forma, é válido que continuemos a plantar nossas sementinhas. De repente, num momento futuro, com um "clima" melhor, em sólo fértil, ela germine e dê frutos...
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Foi assim que tudo começou lá atrás, na década de 90, muito antes do Toninho ganhar a eleição por aqui...
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Aliás, esta semana, no último dia 10, fizeram 7 anos do assassinato de Toninho. Até hoje não houve uma conclusão convincente por parte da polícia (militar ou federal...). Segue o link do site da campanha para a solução do caso (clique aqui).
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Saudades...
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Fico devendo um post em homenagem.