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domingo, 6 de junho de 2010

Zezão



Pensar no graffiti é pensar no contexto urbano das grandes metrópoles do mundo todo. Desde meados dos anos 70 e 80, quando os membros das gangues de NY deixavam suas Tags de demarcação nos muros dos guetos, até os primeiros Bomb's e Wild Style's, muita água passou debaixo da ponte do hip hop...

Qualquer mano (ou mina) que queira marcar presença nos dias de hoje se expressando através do graffiti deve levar em conta toda a história do hip hop. É todo um legado, uma tradição, que temos de defender.



Ruínas em Belo Horizonte

É impressionante constatar onde o graffiti chegou... e onde pode chegar. Os letreiros, que caracterizam a base do graffiti, são a forma mais clássica e pura, a essência da arte das latinhas de spray. Sempre será assim. Mas eles dividem espaço, agora, com novas criações, novas formulações que transcendem os fundamentos básicos do graffiti. Novas influências, novas propostas. Mas com o mesmo espírito que motivou os primeiros "desbravadores" de metrópoles que deixavam suas marcas nos metrôs de NY há uns 30 (!) anos atrás...

Acima, Zezão deixa sua marca no Bronx, gueto de NY City

Um passo atrás do outro, cada um cumpriu com seu papel histórico. E o momento agora é de evolução. Não no sentido de melhoria, como se as formas iniciais do graffiti fossem inferiores, até porque elas são mais atuais do que nunca e estão aí até hoje, com toda a força, mas evolução no sentido de transformação. Assim é o trampo do Zezão. Difícil de definir, mas, ao mesmo tempo, um trabalho inconfundível. Seu estilo, para aqueles que tomaram contato, é sua marca registrada.


Uma ironia do destino: ao mesmo tempo em que os pixadores disputam espaço de destaque no topo dos arranha-céus paulistanos, Zezão se destaca justamente num espaço sujo e obscuro, para onde ninguém quer olhar: as galerias de esgôto. Genial. É o reino do contraditório, em pleno sub-solo da cidade de São Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo. A arte de Zezão convive com tudo aquilo que a cidade rejeita e não quer pensar a respeito. É no mínimo intrigante...

Graffiti em Paris

Paris

O que mais me impressiona no trampo do Zezão é a sua atualidade. Sua arte faz um diálogo com diversos dilemas de nossa sociedade: a preservação ambiental, a destinação do lixo, o crescimento desordenado das metrópoles. Seus "flops" (denominação dele para seus graffitis abstratos) azuis típicos contrastam com o contexto onde se inserem: são um toque de limpeza em meio à poluição, de paz em meio ao caos do abandono. Uma forma de chamar a atenção da sociedade para o que temos à nossa volta.

É legal ver um militante do hip hop com espaço de exposição na mídia não fazer feio. Isto é fundamental. Mais do que isto, mantendo os pés no chão, sem perder os vínculos com a rua.

Paris


Passamos todos os dias diante de uma série de lugares, que possuem muito para nos dizer: sobre nós, sobre nossa sociedade, sobre a vida no séc. XXI de um modo geral... Vivemos num mundo caótico, sem muitas vezes pensar nisso. O cidadão paulista, o mesmo que elegeu o "Rei do Cinza", transita todos os dias na marginal, fecha o vidro e vai embora... O trabalho do Zezão está obrigando os caras a abrir os vidros. Isto é fundamental se quisermos repensar o mundo em que vivemos.


O graffiti do Zezão parece o dedo do garoto na história da roupa nova do rei, a denunciar "o rei está nu!". Talvez por isto tenha chamado a atenção dos mais antenados e sensíveis artistas plásticos, acadêmicos, designers, arquitetos, etc. Toda essa gente se acotovela para abrir o Flickr do Zezão e olhar, mesmo que indiretamente, para o esgôto.


Me orgulho que o responsável por tal feito seja um cara do hip hop. Mas não me surpreende. Quem duvidou, aguarde, pois iremos ainda mais longe, com certeza. Afinal, um artista plástico que respira os ares "chic's" das galerias de arte, nunca iria respirar o cheiro fétido de bosta das galerias de esgôto...

Taí um cara que fez por merecer e representa o hip hop com muita dignidade. Os espaços estão aí, disponíveis à todos aqueles que batalharem por eles, de forma qualificada e honesta. Para todos aqueles que têm algo a dizer, e com originalidade.



Fonte das imagens: Flick do Zezão

Os trabalhos não-sinalizados são de galerias, ruínas ou córregos de São Paulo/SP. Para este post, coladorou Aliada Ci (www.aliadaci.blogspot.com)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Estética Urbana: Protestos Contra o Cinza do Kassab


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Um grupo de pixadores* atropelou, nesta madrugada, um muro da 23 de maio onde está exposto um trampo da dupla "osgemeos". Os irmãos ainda não se pronunciaram sobre o caso. Nos pixos, palavras de ordem contra Kassab e a Prefeitura de São Paulo, além da inscrição "200 mil", valor que atribuem ao custo do trabalho feito pelos grafiteiros.

Via de regra, existe uma política de boa vizinhança entre grafiteiros e pixadores. Quando este pacto se rompe, geralmente existe alguma desavença específica por trás. Neste caso, onde um grupo se organizou para protestar contra a Prefeitura (que têm espalhado sua "política do cinza", apagando graffitis), acabou sobrando para a dupla "osgemeos" também. Segundo informações que circulam na grande mídia, o grupo é o mesmo das intervenções na Bienal e no Centro de Belas Artes. Me parece que a imprensa brasileira quer jogar tudo no mesmo balaio, até como tática para dividir o movimento.


A mesma Avenida 23 de maio (muro da foto acima) já havia sido palco para um grupo de 150 grafiteiros e pixadores em setembro do ano passado. Entre os graffitis, haviam pixos "fora kassab" e "apaguem os problemas da cidade". Antes disso, o muro já havia sido pintado de cinza numa ocasião, quando a Prefeitura apagou "por engano" um trampo feito pela dupla "osgemeos". No ano passado, uma nova ação da Prefeitura deixou o muro cinza novamente, desta vez respeitando a alça de acesso onde estavam novos graffitis feitos pela dupla "osgemeos". Desta vez, o protesto não poupou nem o trampo da dupla, atravessado pelos pixadores.

É um bom debate a ser feito: que padrão estético interessa aos grandes centros urbanos. Muitos rejeitam o pixo (o graffiti já vêm sendo mais aceito...) como se o amontoado de prédios e muros cinzas manchados de fumaça fossem a última maravilha estética. Mesmo a poluição visual dos anúncios e propagandas, geralmente, é feita de forma desordenada e sem critérios.


O graffiti acima, de autoria de "osgemeos", foi apagado. Nunca mais será visto nas ruas de São Paulo...

Outra questão a ser pensada é o mundo da arte em si: este precisa urgentemente passar por uma completa revolução! Quem legitima a arte? Quem diz o que entra ou não numa galeria? Mais do que isto, quem consome e paga caríssimo por uma obra somente porque é moda ou é um bom investimento (aff...) financeiro do ponto de vista do mercado? Pra que serve a arte? São questões a serem pensadas...

Os pixadores, assim como os grafiteiros, precisam ter a clareza de quem são seus verdadeiros inimigos. Do contrário, ações como esta podem cair na banalidade, mesmo no meio underground, entre aqueles que estão nas ruas. O protesto só vale se feito com um objetivo, do contrário é rebeldia sem causa, totalmente despolitizada. Se bombardeamos uns aos outros, através de "fogo amigo", quem se beneficiará com isto será a elite conservadora, que hoje dirige São Paulo através do prefeito Kassab (DEM) e sua política "cidade limpa".

Na foto acima, a 23 de maio cinza do prefeito Kassab (DEM).

Acredito que a onda de intervenções que os pixadores vêm realizando na capital paulista têm o mérito de estar pautando um debate e uma reflexão importante. O perigo é a banalização. Existe um risco, a ser evitado, que é a perda da direção dos movimentos. São ações que estão no limite entre um protesto organizado e politizado, e uma mera rebeldia juvenil. Num movimento de protesto, existem pessoas que se mobilizam pelo ibope, pela adrenalina, outros pela crítica, pelo protesto. Estes últimos é que devem estar a frente do processo, até para que suas miras se voltem para o alvo certo.

*Obs.: Uso pixo com "x" por ser esta uma grafia usada pelos pixadores, pois demarca uma diferenciação com outras formas de pichação (política, punk, etc.).

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

OSGEMEOS no Roda Viva



Os irmãos Gustafo e Rodolfo Pandolfo, mais conhecidos mundialmente como "osgemeos" estiveram, agora à pouco, no Roda Viva, da TV Cultura. O progama vai ao ar em reprise no Domingo, dia 20 de dezembro. A dupla já ocupou, com sua arte contemporânea, a Galeria Fortes Vilaça (SP - Brasil) e a Deitch Projects Gallery (NY - EUA), que representa Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, artistas que também se notabilizaram pelo diálogo com o graffiti e a cultura hip hop. Digo arte contemporânea porque, conforme os irmãos definem, o graffiti só existe enquanto tal se feito na rua.

O trabalho que eles desenvolvem nas galerias é mais amplo e pode ser definido como arte plástica, ou arte contemporânea. Isto, em minha opinião, é uma boa forma de os artistas, que optaram por frequentar os meios de comunicação de massa, lutarem pela manutenção da essência da cultura hip hop, sem que ela se banalize ou se descaracterize. Eles são, em minha opinião, um bom exemplo de militantes do hip hop que sabem usar a mídia para se promoverem. Mesmo estando muito distantes do hip hop, como eles mesmos admitem, é nítido o respeito pela cultura. São artistas que não nos fazem passar vergonha quando estão sob os holofotes. Outros fizeram papelões, sendo vendidos até à exaustão como se fossem enlatados e depois sumindo, mudando radicalmente de postura ideológica ou até mesmo mostrando uma fragilidade cultural e até uma certa inocência ignorante. Viraram piada no Jô ou no Faustão, motivo de escárnio...


Aliás, outro que me impressionou com sua postura foi o Zezão. Mas este merece um outro post... Estou devendo, admito.

Estou entre aqueles que ainda acreditam no hip hop pelos seus elementos ligados uns aos outros, unidos e dialogando numa cultura de rua. Muitos que ganharam destaque abandonaram as outras linguagens, como se a sua linguagem (não importa se o graffiti, o rap, etc.) fosse única e independente. Outros chegam até a desvirtuar a história: já ouvi por aí pessoas afirmando que o rap não faz parte da cultura hip hop... Absurdos à parte, embora esteja muito longe da realidade das grandes galerias - e não me preocupo muito com isto, na verdade... - sinto muito orgulho destes caras. Souberam usufruir dos benefícios que a fama lhes trouxe com serenidade, sem jogar na lata do lixo a história de muitos, construída com "suor e sangue", e preservando com respeito o espaço daqueles que estão nas ruas desenvolvendo seus trampos e perpetuando a cultura hip hop.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Concurso Põe Pichadores Contra Grafiteiros



No dia 11 de março a Prefeitura de Campinas lançou o “Concurso de Arte Livre e Grafitagem de Campinas”. Segundo as manchetes dos jornais locais, o objetivo é “incentivar o graffiti para combater o vandalismo”. Onde se diz “vandalismo”, leia-se “pichação”.

A iniciativa da Prefeitura de Campinas é louvável, principalmente pela envergadura do evento. São aproximadamente 50 mil reais de investimento, conforme anunciado, com premiação que vai de kit de latinhas de spray até uma quantia de R$ 3.000,00 para o 1° colocado, exposição de trabalhos em outdoor's e ampla divulgação na imprensa local (Saiba mais aqui). Não é todo dia que o graffiti recebe um tratamento deste tipo por parte do poder público. No entanto, o Concurso tem gerado muita polêmica, inflando ânimos de pichadores e grafiteiros da cidade, em função do formato e do objetivo adotados. A iniciativa, bem acolhida pela imprensa e por setores da burguesia campineira (em especial comerciantes e moradores do centro), gerou intenso debate e foi alvo de duras críticas por parte de militantes do hip hop.
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O graffiti alcançou um status tamanho no Brasil e no mundo que é suficiente para que mereça o investimento do poder público como arte, e não como mero instrumento de combate a um delito, no caso a pichação. É muito comum um pichador se envolver no universo do graffiti e acabar abandonando o “pixo”, fosse o contrário não existiriam tantos grafiteiros ex-pichadores. Porém, este é um processo lento e subjetivo, e não automático como muitos pretendem. O discurso usado pelos organizadores do Concurso, explicitando o processo, colocou pichadores contra grafiteiros, o que, ao invés de incentivar, acaba por atrapalhar a militância dos grafiteiros, dificultando em vez de facilitar que o pichador migre para o graffiti. Além do que, o combate ao “vandalismo” é papel da segurança pública e não dos artistas.

Outro ponto a ser refletido é o impacto de um Concurso entre os grafiteiros. A rivalidade é o motor da pichação. O pichador é movido por “ibope” (popularidade), pela adrenalina do risco, pelo “prazer” da agressão, da contravenção e pela disputa com os rivais. O grafiteiro, pelo contrário, é movido pela consciência social, pelo prazer da arte, pela possibilidade de expressão. Ele quer confrontar idéias ou preconceitos e não pessoas ou rivais. O Concurso, ao prever uma premiação e um julgamento dos melhores trabalhos, vai justamente contra a maior vantagem do graffiti em relação ao “pixo”: a confraternização, a socialização. Colocou grafiteiro contra grafiteiro.

Os 50.000 reais anunciados como investimento comprariam cerca de 4.166 latinhas de spray automotivo da marca colorgin (a um custo médio de R$ 12,00 a lata - em Campinas - em cores comuns não-metálicas). Seria possível realizar 10 mostras como a de 17 de julho de 2003 (II Mostra de Graffiti de Campinas) que coloriu os muros da SANASA, onde todas as crews que se inscreveram tiveram seu espaço no muro com kit de tintas cedido pela Prefeitura. Em torno de 50 artistas de rua puderam expor seu trabalho em um dia ensolarado de socialização. x


Os R$ 50.000,00 seriam suficientes para a celebração de 3 ou 4 convênios, como o que havia na Casa do Hip Hop em 2003, garantindo oficinas de Graffiti, MC, DJ e B. Boy (com 4 oficineiros ganhando R$ 800,00 por mês) por um período de 1,5 a 2 anos!

Quem conhece a realidade das ruas de perto sabe bem como funciona a repressão aos pichadores. Em geral, a polícia, quando pega em flagrante, espanca e picha o rosto e o corpo dos pichadores, que são na maioria menores de idade. Todas estas ações, que em tese visam a repressão, pelo contrário, servem de combustível. É como apagar fogo com gasolina. Pra quem cultua e vive do risco, a repressão, da forma como é feita, torna o picho ainda mais instigante...

O poder público não compreende o mundo do “pixo”. As pichações que existiam antes dos anos 90 em Campinas, de conotação política (tipo: abaixo a ditadura! ou diretas já!) ou pessoal (tipo: fulana, eu te amo!) não possuem nenhuma relação com o movimento que acontece atualmente. Eram manifestações isoladas, comparadas com o “pixo” atual. O universo do “pixo” é um mundo paralelo, uma organização com rituais próprios, hierarquia rígida e código de conduta próprio. De tão organizada, se espalhou como uma praga debaixo dos nossos narizes, sob a omissão do poder público. No ponto em que chegou, é difícil imaginar que cesse um dia...
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Esta situação somente será revertida quando o poder público buscar entender as motivações, os caminhos e as razões mais profundas que levam um adolescente chegar ao ponto de se tornar um pichador, se submetendo a exposição dos riscos que a noite apresenta. Porque estes garotos não estão na escola ou trabalhando? Este é um drama que tem raízes sociais. O “pixo” é uma consequência direta do caos urbano e da exclusão social que o capitalismo gerou. Um plano de prevenção deve considerar o trabalho em conjunto da cultura com a assistência social, a educação, a saúde, o departamento de urbanismo, etc., de forma integrada.

É papel do poder público considerar a sociedade como um todo em suas políticas, e não apenas um setor X ou Y. A condição dos garotos pichadores deve ter prioridade sobre os anseios por “limpeza” da burguesia. No ano passado, um garoto morreu após cair de um prédio e não se viu tanta mobilização em torno do problema. Por mais que a questão da limpeza possua a sua legitimidade – devo reconhecer – ela se torna uma questão menor quando o assunto é uma vida humana.

Os pichadores encontram no “pixo” muito do que a sociedade não oferece a eles, como aceitação, auto-estima, identidade, socialização e diversão. É o lugar onde eles alcançam algum reconhecimento. É onde eles desenvolvem um sentimento de pertencimento. Cabe ao poder público e a sociedade “disputar” o destino destes garotos, tratando a questão como um problema social e não como um caso de segurança pública.


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Solveig: Graffiti Infantil Inglês


A jovem Solveig (10 anos), que começou a grafitar aos 8, tem sido motivo de alarde em Londres, na Inglaterra. Ela mora em Brighton, que fica no litoral britânico, e começou pintando os muros de sua vizinhança, nos momentos em que não brincava com suas bonecas ou colecionava figurinhas.


O trabalho da foto acima chama-se "Scare Cuts". Ela tem sido comparada ao Banksy pelas suas pinturas. O periódico "The Sun" (clique aqui) já destacou o trampo da "criança", assim como a conceituada revista "Graphotism - graffiti magazine" (clique aqui). Veja aqui mais fotos.
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Um dos seus trampos preferidos (acima) foi feito nas ruínas do muro de Berlim. O que é mais interessante são os temas que uma criança pode trazer, como na foto abaixo, que fogem do convencional...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Pichação na Bienal

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No dia 26 de outubro, mais de 40 pichadores (se escreve com “ch” mesmo, embora os pichadores grafem com “x”, por opção) atacaram o “pavilhão vazio” da 28ª Bienal Internacional de São Paulo. A jovem de 23 anos Caroline Pivetta da Mota está presa desde então e pode ficar na Penitenciária Feminina de Santana até 2010 – ironicamente, o ano da realização da próxima Bienal. Ela é integrante da gangue Susto's (clique aqui).

O caso repercutiu muito desde então. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, chegou a fazer um apelo ao governador José Serra para que libere a garota. Segundo o Ministro, "é um escândalo uma pessoa ficar presa esse tempo todo porque fez uma intervenção gráfica".

O pixo é um vandalismo. Todos sabem disso (inclusive, e principalmente, os pichadores...). Mas a repressão, por si só, não resolverá o problema. E não dá pra colocar no mesmo nível de outros crimes.

Quando o “artista plástico” Maurício Ianês vagou “nu” pela Bienal de São Paulo, no saguão do 2º andar, foi aplaudido pelo “mainstream da arte”. Lá ele ficou, sobrevivendo de doações dos visitantes. Mas, e se o mesmo Maurício fosse um desconhecido e tivesse “invadido” o saguão “pelado” (e não “nu”), o que aconteceria? Será que a mesma organização do evento teria chamado a polícia?

O que faz da arte, verdadeiramente, ARTE? Um carimbo “oficial”? O reconhecimento por parte da elite? Uma autenticação dada por meia dúzia de engomadinhos esnobes?
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O mundo da arte (o status quo...) é elitista e excludente. O poder público, em geral, nada mais faz do que legitimar esta lógica excludente. Daí que chega a ser uma afronta deixar um andar vazio na Bienal. É um deboche sobre uma multidão de excluídos. É cuspir na cara daqueles que ficaram de fora... Natural que haja uma reação. Ainda bem!

Não quero aqui assumir a posição de advogado do diabo. Muito menos engrossar o coro reacionário e conservador da imprensa e da elite econômica brasileira. Acho que o pixo é muito mais um sintoma do que uma doença de nossa sociedade moderna. Exatamente por isso que todas as iniciativas do poder público para “combatê-lo” ou “preveni-lo” fracassam: encaram o pichador como uma doença. E daí, tudo que fazem acaba por incentivar mais do que inibir: apagam incêndio com gasolina...

O maior mérito da pichação foi a repercussão. A iniciativa gerou um debate intenso e profundo sobre o caráter da Bienal, o papel da arte, etc.


quarta-feira, 27 de agosto de 2008

1ª Bienal Internacional de Graffiti de Belo Horizonte

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Belo Horizonte vai sediar, entre os dias 30 de agosto e 7 de setem-bro, a 1ª Bienal Internacional de Graffiti de Belo Horizonte (informações e programação aqui). O evento terá exposições, seminários e intervenções nas ruas da cidade. A idéia é discutir o grafite no cenário artístico atual. O artista plástico e grafiteiro Rui Santana será o curador do evento, junto com Binho Ribeiro, Thereza Portes, Piero Bagnariol, Sara Carvalho e Geraldir Bernardilho. A entrada será gratuíta.


A bienal exporá o trabalho de grafiteiros de São Paulo, Belo Horizonte, do Rio de Janeiro, Recife, além de representantes de outros países, como África do Sul, Chile, Nova Zelândia, Porto Rico, Holanda, EUA, Europa e Japão. A programação terá quatro exposições, seminários com grafiteiros e estudiosos, intervenções nas ruas da cidade e uma programação musical com grupos e DJs. Haverão performances de videoarte.


Considerando que minhas postagens sobre graffiti geraram um grande número de comentários e e-mails no Blog, tentarei manter o tema sempre bem atualizado por aqui!

Na sequência, de cima para baixo, os graffites foram feitos por: Galo de Souza (PE), Dninja (MG) e Trampo (RS).
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Entre os grupos que se apresentarão está o Negras Ativas, da Larissa Borges, velha conhecida nossa aqui em Campinas (ela já esteve aqui) e de tantos fóruns de hip hop da vida. Elas são de BH mesmo e o grupo é formado por mulheres.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Graffiti e Aerografia em Campinas

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Seguem algumas fotos de trampos de um grafiteiro parceirão meu lá da região do São José e Jd. das Bandeiras: o Binho. Além dos tradicionais rolês com as latinhas de spray, ele trampa também com aerografia. Muito louco. Muitos grafiteiros tem restrições ao aerógrafo, até um certo preconceito mesmo. Eu acho que desde que se separe bem as coisas, os dois são válidos. Desde que a essência da arte da latinha não se perca, é claro. E que não se confunda: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Aerografia não faz parte do Hip Hop. Mas também é uma forma de arte. Podendo, inclusive, ser uma boa fonte de renda, já que o foco principal do Graffiti não é este... Interessados, entrem em contato que eu dou um salvão nele com certeza.
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Acima, um trampo em capacete. Abaixo, o Ice Cube numa camisa. O Binho é da mesma quebrada que o Alex F, o finado Xandão do Sistema Negro.


Este, abaixo, que eu pesquei lá no Orkut do Binho, é um trampo do grafiteiro Washington (WPPL). Pelo que me consta, é o primeiro grafiteiro de Campinas. O cara é das antiga, old school mesmo, do tempo em que as informações sobre o Graffiti eram raras e o preconceito era maior que hoje em dia. Naquela época não tinha grafiteiro "de revista", quem aprendia era na raça, na rua mesmo. O cara grafitou o Nifama... Quer mais o quê né...

domingo, 25 de maio de 2008

Graffites Brasileiros na Europa


Os brasileiros "Nunca" e "Osgemeos" foram selecionados pela galeria Tate Modem para participar da exposição "Street Art". É a primeira grande mostra do gênero em um museu público de Londres. Pela primeira vez na história, a fachada do prédio, que fica na margem do rio Tâmisa, foi pintada. Acompanham os brasileiros o grupo Faile (Nova York), JR (Paris), Blu (Itália) e Sixeart (Barcelona).


O lançamento aguardado para a exposição é o livro "Street Art - The Graffiti Revolution", de Cedar Lewisohn, que estará a venda. O livro conta a história da arte urbana desde a pintura rupestre até o presente, com depoimentos, entre outros, da dupla Osgemeos, Shephard Fairey (Obey) e Malcom McClaren. Espero que chegue ao Brasil no futuro.


Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como "Osgemeos", conseguiram algo nas ruas de São Paulo que muitos artistas plásticos que vivem no interior das galerias almejam mas não conseguem: alcançar o reconhecimento internacional. Em projeto do final do ano passado, os dois, juntamente com os grafiteiros Nunca e Nina, grafitaram o Castelo de Kelburn, na Escócia. Foram recebidos ao som de gaita de fole, com jantar típico escocês, com direito a asteamento da bandeira brasileira e tudo mais.

Em entrevista recente, a dupla criticou a postura da prefeitura de São Paulo: "uma cidade como São Paulo, com seus milhões de problemas, e a prefeitura atual se preocupa em contratar uma empresa só pra limpar grafite, seja ele qual for, onde for, pra quem for. É muito fácil tapar o sol com a peneira... (sic) Nossa proposta é que não haja repressão contra a expressão artística urbana, como nunca houve. Que os jovens possam pegar suas tintas e, em vez de cometer crimes, tenham a oportunidade de criar, se expressar e usar a cidade de uma forma positiva". É nestes detalhes que a prefeitura de São Paulo põe suas garras conservadoras de fora...


Questionados sobre a possível perda da essência do grafite, ao migrar dos muros da cidade para as galerias e museus, a dupla responde: "em nosso trabalho ele não perde a essência. Podemos estar em qualquer lugar ilustrando nossa "história", que será sempre a mesma "história". O que muda é que o grafite tem a característica única de ser a arte feita na rua e apenas lá. Artistas de grafite podem ir para as galerias, mas a essência dessa arte está na rua e nos trens, e não em galerias de arte e museus. Quando ele passa para esse mundo, na nossa opinião, deixa de ser grafite e passa a ser arte conceitual, arte contemporânea". Concordo em gênero, número e grau!