quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Luciano Huck X Ferréz


De que lado você está?


Seguem os dois textos publicados na Folha, um do Luciano Huck e outro do Ferréz. Na sequência eu opino...

Pensamentos Quase Póstumos
LUCIANO HUCK


Luciano Huck foi assassinado. Manchete do “Jornal Nacional” de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio. Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado. Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.

Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa. Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável. Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais - e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres. Onde está a polícia? Onde está a “Elite da Tropa”? Quem sabe até a “Tropa de Elite”! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.

Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso. Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.

Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir - com um 38 na testa - que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase “infantis” para uma sociedade moderna e justa. De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.

Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber. Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de “extraterrestres” fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no “Roda Vida” da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, “Tropa de Elite” é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando. Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: “Cansei”. O Lobão canta: “Peidei”. Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.

Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio. Isso não está certo.

Resposta:

Pensamentos de um “Correria”
FERRÉZ


Ele me olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto.

Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos.Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo.

O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada. O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga. Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita.

Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal. Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito.

Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber.Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado? Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém.Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra. Não acreditava em heróis, isso não! Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto. Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora. Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso.Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo.

A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos! Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa. Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.

Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Desenho Hip Hop Animado!


Dia 21 de setembro (sexta-feira) estréia no Cartoon Network (TV a cabo) o programa "Batalha - A Guera do Vinil". Trata-se de uma animação "stop motion" produzida por brasileiros. A história se desenrola em uma favela de São Paulo, onde acontece uma batalha entre DJ Air e DJ Black Jahmantha. Quem apresenta a festa é Thaíde.

Mais de 40 profissionais, comandados por Marcio Greco (Diretor de Fotografia), tiraram mais de 10.000 fotos, construíram 28 personagens em massa e 3 cenários, um deles uma favela com mais de 300 barracos! Vale a pena conferir, pra quem tem acesso a TV a cabo. Para quem não tem resta aguardar para ver se a TV aberta compra os direitos e exibe. A conferir, com muito mais detalhes muito em breve, é lógico... Estréia dia 21 de setembro, às 00:00 hs.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Fique Rico ou Morra Tentando!

Assisti recentemente ao filme do 50 Cent Get Rich or Die Tryin' (Fique rico ou Morra Tentando). Todos que me conhecem sabem que o "50 centavos" definitivamente não é meu rapper predileto - apesar de eu admitir que 2 ou 3 musicas suas são legais, mas é só isso e não passa disso... Não é que me surpreendi ao assistir ao filme!

O 50 Cent é o estereótipo perfeito do que se tornou o gangsta rap nos EUA...

Certa vez o Ice T (aquele mesmo, de Law and Order - Lei e Ordem - e da musica Collor´s) deu uma entrevista a MTV brasileira e afirmou para Mano Brown, diante do Capão Redondo, que um Gangsta Rapper "nada mais era do que um rapper que canta denunciando os problemas vividos por sua comunidade, que faz algo ou luta por sua comunidade...", isto para ninguém menos que ele, o criador do termo, o pai da matéria ao lado do NWA, do CMW, do SCC, e etc. O grande problema é que, com o passar dos anos, "Gangsta Rap" virou sinônimo de apologia ao crime. A palavra perdeu o seu significado original. Por razões óbvias: vende mais, causa polêmica, chama atenção...

O filme do 50 Cent faz referências a sua vida pessoal. E sua vida pessoal é um exemplo, não um exemplo a ser seguido, mas um exemplo do que é de fato o universo da criminalidade, sem o glamour dos videoclipes ou dos filmes norte-americanos. É, porque os críticos mais duros do gangsta rap são aqueles mesmos que assistem aos filmes americanos de hollywood e vibram com a carneficina, se emocionam com os tiros e tudo mais...

Claro que o filme não é transposto da mesma forma como na vida real. O que é bom, diga-se de passagem... O diretor Jim Sheridan e o roteirista Terence Winter souberam montar um roteiro que chega a emocionar. Um bom filme. Uma boa história de um ladrão que tentou se regenerar (dentro de suas limitações...) através do rap, algo mais comum do que se imagina. Vide o exemplo do Sabotage, rapper brasileiro cuja história não teve um final com o glamour de hollywood, mas que também daria um bom filme, com certeza, até melhor que o do 50...

Olhando para o 50 Cent dentro do contexto em que ele surgiu, é possível entender seus caminhos, e até de repente absolvê-lo. Fica fácil, através do filme, perceber que o buraco é muito mais embaixo, e que muitas "lideranças" do próprio movimento negro norte americano fazem o jogo do opressor através da maneira como criticam o rap. O Gangsta Rap, como atitude política, perdeu muito espaço para o Gangsta Rap Enlatado produzido atualmente em larga escala nos EUA. O problema é que o Gangsta Rap Enlatado é somente um sintoma de uma doença muito maior e avaçaladora. A verdade é que o 50 Cent é um produto da sociedade capitalista de consumo desenfreado e de individualismo norte-americana. Os americanos merecem o 50 Cent! E merecem o "Gangsta Rap Enlatado" (ou pseudo Gangsta), que é um dos tipos de rap mais consumidos, se não o maior de todos...

Talvez o mundo todo também mereça...

domingo, 2 de setembro de 2007

Estamos fora mais uma vez...


Após uma campanha extremamente conturbada, mais uma vez ficamos de fora de mais uma Olimpiada. É claro que ainda tem o pré-Olimpico mundial, mais lá a coisa vai ser muito mais difícil. Se não conseguimos nem vencer o time B da Argentina... 91 a 80 foi o placar.
A equipe brasileira, sem organização tática, com um grupo desunido, com uma Comissão Técnica que é uma piada, com dirigentes que se esforçam ao máximo para levar nosso basquete tupiniquim ao fundo do poço... E tem conseguido, diga-se de passagem. Faltou padrão de jogo, faltou amor a camisa, faltou substituir na hora certa, faltou pulso firme para orientar o grupo, faltou muita coisa...
Uma geração que é muito boa, porém não treinou, não se preparou...
Fora Grego! Fora Lula!
Para saber mais: http://www.rebote.org/ (um bom site de debates, confira!)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Nenê Confirmado!

O Denver acaba de confir-mar a participação de Nenê Hilário no pré-Olímpico. O Brasil não se classificou para as duas ultimas Olimpíadas. Depois de muito tempo, a seleção poderá contar com sua força máxima. Nenê, se-guindo conselhos do amigo Leandrinho, resolveu dar uma trégua aos cartolas da Confederação Brasileira de Basquete, com quem mantinha uma queda de braço a alguns anos, devido a uma série de divergências.

O Basquete brasileiro sempre foi um jogo de playboys. Ao menos o basquete profissional, com certeza. Pra se jogar basquete em nosso país é necessário ser sócio de um clube caríssimo. Quase não existem categorias de base que possibilitem que os talentos apareçam e tenham oportunidades profissionais.

As comissões técnicas brasileiras, tanto nos times, quanto na seleção – e principalmente na seleção – sempre tentaram moldar times à partir de um padrão eurocêntrico, buscando reproduzir o estilo europeu de jogar... Isto, num país que tem a maior parte de sua população descendente de africanos. Há aqui o potencial para o surgimento de vários jogadores com a ginga de um Michael Jordan.

Nesse tipo de basquete que o Brasil praticava, o esquema tático é tudo. O time joga em função de um arremessador (um Oscar da vida...) que aparece sozinho na quadra. O time só possui uma jogada. Uma só opção. Os técnicos, do lado de fora, se esforçam para aparecer mais do que o jogador, que, na concepção do público, em qualquer esporte, é a estrela absoluta... Estas eram as críticas de Nenê quando não se apresentou a seleção brasileira em outras oportunidades.

Eu nunca vi sentido algum na maneira que o Brasil joga basquete. Havia uma contradição entre o que se via nos rachões, nas quadras de escolas que os alunos tinham que pular o muro no final de semana para jogar, nas raríssimas praças onde a depredação ainda não havia arrasado com tudo e o que se via no basquete profissional do Brasil. Eram dois países diferentes. Ao contrário do futebol, que buscou na favela um Romário ou um Ronaldinho, o basquete profissional brasileiro nunca refletiu a composição étnica brasileira, nunca contemplou todas as classes sociais que, a duras penas e com muita paixão, praticavam o esporte da bola ao cesto.

Nenê Hilário, junto com Leandrinho e outros, vieram para equilibrar um pouco as coisas e mudar – espero que definitivamente – a história do basquete brasileiro, que é uma história que possui algumas glórias, devo admitir, mas também é uma história de exclusão, há que se dizer em bom tom e em voz alta. São representantes de uma geração que cresceu assistindo a NBA e literalmente chegou lá. Ficou difícil para a CBB não reconhecer o talento que fez os norte-americanos se reverenciarem...

Vai ser interessante ver este time disputar o pré-olímpico... Que venham os arremessos de Marcelinho Huerta, representante legítimo do basquetebol do passado, e que é importante para a seleção. Mas não com exclusividade. Que venham também as enterradas de Nenê as infiltrações de Leandrinho!

sábado, 21 de julho de 2007